Biografia |
• José Bernardino
da Costa, mais conhecido como Professor Zuzu, nasceu
em Ipameri-GO, em 1924.
• Órfão de pai e mãe, aos
quatro anos de idade, foi criado pela avó e
pela irmã Delza, até ingressar no seminário
da Congregação dos Sagrados Corações,
em 1943.
• Em 1946, vai para o noviciado e, após
ano e meio de permanência na Holanda, desiste
da carreira conventual e retorna ao Brasil.
• Ao voltar, dedica-se à docência
e assume o cargo de diretor do Colégio Estadual
Professor Eduardo Mancini – 1951 a 1961, 1963
e 1973. Dirige também o Colégio Comercial
de Ipameri – 1953 a 1963.
• Em 1953, concluiu o Curso Superior de Letras,
na Universidade Católica de Goiás. Em
1964, publica a brochura “O Menino e a Arte”,
seguido do livro didático, “Composição
Escrita”, que veio a luz em 1969.
• Casa-se com Maria Helena Carneiro, em 1958,
com quem teve sete filhos: Maria Cristina, Sancha
Anita, João Bosco, José Ricardo, Maria
Juliana, Ana Elísia e Fabiola.
• Na Escola Agrotécnica Federal de Urutaí,
onde lecionou por dezoito anos, encerra sua atividade
docente, aposentando-se em 1991.
• Reside com a esposa em Ipameri, e responde
por um programa semanal na Rádio Xavantes e,
a convite, desenvolve palestras e conferências
na região.
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Das coisas Indizíveis |
Área a focalizar: “A
Escolinha”.
Pontos
de referência: fimose, carteiras, desenho, bate-papo.
Personagens:
Marquinho (Sgto. Moura), Sandra (Eurípedes
Gonzaga), Mônica (Ozires Barreto), Fábio
(Mário Vaz de Carvalho) e Maria Helena (Professora).
Fato:
As coisas, às vezes, são difíceis
de dizer.
Episódio:
Foi na “A Escolinha”, jardim da infância
da patroa, que o fato se deu.
Os
meninos dos seus quatro, cinco anos preparavam-se
pra desenhar, quando apareceu o Marquinho, ausente
havia uma semana, porque se submetera à operação
de fimose.
Os
colegas o esperavam com saudades e, mal apontou ele,
todos se desmancharam em atenção e contentamento.
Arrefecidos
do primeiro contato e alojado o Marquinho em sua carteira,
os lápis começaram incursões
ferozes, de mistura com a tagarelice da meninada.
Nisto,
a Sandrinha comenta brejeira:
-
Coitadinho do Marquinho; ele operou, mas não
pode contar de quê...
Olhos
ligeiros da professora se cruzam com os súplices
do indiciado:
-
Que que tem, não é Marquinho? Muita
gente faz essa operação.
-
Até eu já, acode a Mônica.
-Eh!
Eh! Você não. O Marquinho operou foi
do...ram, ram, ram – concerta a Sandra.
-È,
liquida o Fábio, mostrando com os dois dedos:
um ram, ram, ram deste tamanzinho!
COSTA, José Bernardino da. Coisa de Menino.
Gráfica Kessler, 1999, 120p
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Poesia de Natal |
A época sugere.
Diante
dos olhos, tenho Andersen, o mais poeta dos poetas
infantis. A gravura me alumia a fantasia: diviso,
no fundo azulado, a menina que risca um fósforo
– tch! e sonha chiante braseiro enfeitado de
bolas de cobre. O recanto lhe aquece a alma. Tem vontade
de esquentar os pés descalços, perdidos
no gelo da neve, no vento sibilante. De pronto estende
as mãozinhas roxas, mas a chama do fósforo
se apaga.
Foi
gostoso aquele primeiro alumbramento. A caixa está
repleta de fósforos para serem vendidos. Não
agüenta: apanha o segundo e...tch! – agora
são paredes perdendo dimensão. Ela se
torna dona de uma sala de finas porcelanas em cujo
centro rescende um pato recheado, envolvido em castanhas
e maçãs. O pato dói-lhe no estômago.
Outra
vez a realidade desconcertante. É preciso sonhar,
sonhar sempre. Com os dedos entorpecidos, acende a
árvore de Natal, acende centenas de velas faiscantes,
figuras de cores mil, animadas, sorridentes. Acende
as velas mais altas que se libertam da árvore
e se confundem com as estrelas do céu. Lembram
vovó. (Que saudade de minha vó!). Vovó
dizia: “Estrela que corre carrega alma para
outro mundo”.
E
a menina segura a ponta de mais um fósforo
apagado. Em extremo esforço, cortada de frio,
ateia novo lume, e vê, vê a avó
sem fome nem frio, gorda de paz celestial. “Vovó,
não vá embora!” Desesperada, risca
uma carreira de fósforos, o último.
Maravilha! A escuridão se esfrangalha em radioso
dia! A vovó chega mais perto, envolve-a num
abraço morno e sobem, etéreas, navegando
nuvens, num aconchego doce a mais não poder.
Neste
Natal, vejo, em cada um de nós, a vendedora
de fósforos.
Cansados,
encaramujados em miseráveis limitações,
erguemo-nos do chão e acendemos, aqui e ali,
esperanças pueris.
O
Menino, porém, assiste por perto, convida-nos
à simplicidade do presépio, para, quando
soar o momento, deixar-nos transportar despojados,
nesse caminho de Deus, para além das estrelas.
COSTA,
José Bernardino da. Coisa de Menino. Gráfica
Kessler, 1999, 120p.
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